A televisão, no fundo, sempre foi uma velha ilusionista cansada, mas ainda cheia de truques. Agora,
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Cenário, ilusão e a falsa novidade da InterTV Cabugi
A televisão, no fundo, sempre foi uma velha ilusionista cansada, mas ainda cheia de truques. Agora, a InterTV e suas afiliadas, incluindo a potiguar, anunciam com pompa a “grande inovação” de seus cenários virtuais baseados em chroma key — como se tivessem reinventado a roda, o fogo e a eletricidade ao mesmo tempo.
Mas é aí que mora a ironia: chroma key é provavelmente uma das técnicas mais antigas da televisão moderna. Esse truque de recortar gente e colar mundos já era centenário quando a internet ainda engatinhava. É tecnológico? É. Mas novo, definitivamente, não é.
E aqui faço um parêntese pessoal — inevitável. Quando comecei na televisão, no Jornal do Dia, nos anos 2000 (TV Ponta Negra/Sbt), eu já usava chroma key. E não era pouca coisa: criei um quadro chamado “Antenado”, uma agenda cultural com dicas de shows, lugares pra sair, o que ver e ouvir. Tudo feito com o mesmo chroma key que hoje surge embrulhado como se fosse startup californiana. O quadro durou anos, migrou do Jornal do Dia para o 60 Minutos, da TV Ponta Negra, é também o nome do BLOG que dura até hoje, e virou referência num tempo em que a internet não entregava o roteiro da semana no seu bolso.
E olha a coincidência — ou não: o nome “Antenado”, anos depois, virou nome de boneco na InterTV Cabugi. Copiaram? Inspiraram-se? Fizeram “homenagem inconsciente”? Não sei. Só sei que, naquela época, não existia. E ficou claro, para mim, que “inovação”, na TV, muitas vezes é apenas memória curta com Photoshop.
Mas vamos ao ponto central: se inovação real é o que se quer, chroma não é o caminho. O mundo verdadeiramente moderno da produção televisiva usa volumes de LED, tracking de câmera, iluminação reativa e motores gráficos como Unreal Engine, onde o cenário muda de perspectiva conforme a câmera se move, com sombras e reflexos coerentes. Isso sim é tecnologia. Isso sim transforma narrativa, estética e ritmo de produção.
O resto é maquiagem digital sobre a mesma parede verde que eu — e metade da televisão brasileira — já usava há vinte anos.
Não tiro o mérito das afiliadas: padronizar visual, baratear operação, agilizar identidade no ar — tudo válido. Mas chamar de vanguarda algo que já era cotidiano nos anos 2000 é transformar o antigo truque do mágico num espetáculo de “tecnologia futurista” para plateias desatentas.
A televisão regional precisa, sim, modernizar-se. Mas precisa ir além do verniz: adotar virtual production de verdade, formar equipes para direção de fotografia virtual, integrar motores 3D ao fluxo diário. Só assim haverá revolução — não apenas “efeito especial”.
Porque no fim das contas, a boa televisão continua sendo aquela que ilumina o real, mesmo quando usa máquinas para fabricar a ilusão. E, convenhamos: um chroma key verde nunca foi, e nunca será, o futuro — apenas o pano de fundo mais antigo da modernidade.