O AM vai morrer?
Rádio AM: soberania, memória e infraestrutura: não apenas áudio!
“Um povo que não conhece e não valoriza a sua história está condenado a repetir os erros do passado.”
Essa frase não se aplica apenas à política ou à cultura. Ela se aplica, de forma direta e inequívoca, à infraestrutura de comunicação.
O debate sobre o fim do rádio AM (onda média) tem sido conduzido, em muitos países, sob um argumento simplista: a suposta inferioridade da qualidade de áudio. Trata-se de uma justificativa tecnicamente frágil e estrategicamente perigosa.
AM nunca foi sobre Hi-fi. Sempre foi sobre alcance, resiliência e soberania.
1. O falso argumento da “qualidade de áudio”!
Comparar AM com FM, streaming ou rádio digital exclusivamente pelo critério de fidelidade sonora é um erro conceitual.
O rádio AM foi concebido para:
a) cobrir grandes áreas geográficas com poucos transmissores;
b) operar com alta robustez em condições adversas;
c) permitir recepção com equipamentos simples, baratos e duráveis;
d) funcionar como meio de comunicação de emergência, inclusive durante apagões elétricos.
Nenhuma dessas características é substituída integralmente por FM, DAB+, internet ou aplicativos.
Eliminar o AM porque “o som é pior” equivale a eliminar navios cargueiros porque aviões são mais rápidos.
2. A quem interessa o enfraquecimento e o fim do AM?
O enfraquecimento do AM não é neutro. Ele atende a interesses específicos.
a) Interesses econômicos:
a1) Transmissores AM de alta potência exigem manutenção e energia.
a2) A migração para FM ou streaming fragmenta cobertura, exigindo múltiplos transmissores.
a3) Plataformas digitais criam dependência de infraestrutura privada, dados móveis e servidores.
a4) O amadorismo na locução baixas custos com o RH.
b) Interesses políticos e de controle
Historicamente, o AM:
b1) alcança regiões periféricas e rurais;
b2) cruza fronteiras naturais;
b3) é difícil de silenciar completamente.
Não por acaso, o AM sempre foi considerado infraestrutura estratégica em contextos de guerra, crise ou desastres naturais.
Eliminar o AM significa reduzir canais resilientes de comunicação pública.
3. Por que outros países não seguem esse caminho?
Porque tratam rádio como infraestrutura nacional, não como moda tecnológica.
Estados Unidos: Mais de 4.300 estações AM ativas, sem qualquer plano federal de desativação. O AM integra sistemas de alerta e emergência, e há debate público para sua preservação inclusive em veículos elétricos.
México, Argentina, Colômbia: AM ativo, sem políticas nacionais de desligamento. O foco é complementaridade, não substituição.
Índia, Paquistão, Bangladesh, Filipinas, Indonésia: Países continentais, com enormes áreas rurais, onde o AM é insubstituível para cobertura nacional.
Oriente Médio, África e Oceania: O AM segue ativo por necessidade prática, não por nostalgia.
Esses países entenderam algo essencial:
rádio AM é soberania comunicacional.
4. O risco da amnésia tecnológica!
Desativar o AM sem garantir um substituto equivalente em alcance, independência e resiliência é repetir erros históricos:
a) troca-se autonomia por dependência;
b) substitui-se infraestrutura pública por plataformas privadas;
c) perde-se memória técnica, cultural e humana.
Isso não é modernização!
É desmonte estratégico travestido de inovação.
5. Conclusão.
O rádio AM não compete com FM, streaming ou digital.
Ele complementa, protege e garante continuidade.
Os países que mantêm o AM não estão atrasados.
Estão preparados.
Preservar o AM não é resistir ao futuro.
É garantir que o futuro não dependa de um único ponto de falha.
Frederico Westphalen, RS, 25/12/2025
Mauro de Souza
Curador do Museu da Eletrônica!