TV 3.0 via satélite, a próxima evolução da TVRO

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TV 3.0 via satélite

Antes do leilão das faixas do 5G muita gente no mercado não acreditava que a migração dos canais de TV aberta da Banda C – a tradicional parabólica – para a Banda Ku, fosse apresentar números tão expressivos. Três anos depois a operação de limpeza da faixa de 3,5 GHz para uso do 5G pode ser resumida em uma palavra: sucesso.

Hoje já são mais de 12 milhões de residências na TVRO Ku, sendo 4,2 milhões via kits gratuitos fornecidos pela EAF, e 8 milhões de kits adquiridos no varejo. Isso representa cerca de 15% dos domicílios do Brasil. Um alcance muito relevante para inúmeras aplicações. A partir desses números a questão que se coloca é, quais devem ser as perspectivas para esse mercado a partir de agora?

Essa foi a base da discussão do painel sobre TV 3.0 realizado no último dia 7 de novembro, durante o II SSPI Day 2024. O evento, organizado pela SSPI Brasil (“Space and Satellite Professionals International”), foi moderado pela Abrasat e teve a participação dos profissionais desse mercado, Ana Eliza Faria, gerente regulatória da Globo; Marcello Martins, diretor de projetos especiais da Bedinsat; Yvan Cabral, presidente da Vivensis e Guilherme Saraiva, diretor de vendas da Embratel/StarOne.

Para os painelistas, a TVRO Ku já está consolidada e agora deve buscar uma nova camada de evolução. Nesse sentido, a TV 3.0 via satélite é o caminho natural, já que ela é, por definição, uma visão de evolução da TV aberta, cuja principal proposta de valor é a integração entre broadcast e broadband. “É a experiência do consumo linear, que todos conhecem, que chega para todos ao mesmo tempo e é gratuita, com a adição de uma nova camada de experiência mais personalizada, com a possibilidade de geração de dados e medição censitária”, explicou Ana Eliza Faria.

Atualmente, um domicílio recebe o sinal de TV aberta pela antena e consome conteúdo pela internet. Com a TV 3.0 isso acontecerá de maneira integrada, sendo que para os domicílios que recebam sinal de TV terrestre, a modalidade de TV 3.0 já está sendo planejada e recebeu a denominação de DTV+. A proposta é estender esse conceito aos domicílios que recebam sinal de TV aberta pelo satélite, aqueles atuais 12 milhões de domicílios citados, com receptores TVRO Ku. Nesse caso, a recepção da TV aberta vem do satélite e a construção de uma experiência de nova parabólica em TV 3.0, teria a mesma proposta de valor de integração de dois mundos, mas no ambiente da TVRO.

TV 3.0 via satélite apoiando a TV 3.0 terrestre​

Essa integração de TV aberta e banda larga na TVRO passa por um receptor híbrido, sendo que a camada de transporte é chave para a TV 3.0. “A integração de padrões é fundamental”, explica Ana Eliza Faria. “Não podemos pensar que seja necessário produzir um conteúdo num formato X para uma plataforma, e em formato Y para outra plataforma.”

A TV 3.0 vai implicar, por parte das emissoras, na construção de uma nova rede de distribuição e de novos receptores. Mesmo para aqueles que já estão na TVRO Ku. Para Marcelo Martins, a adoção de uma TV3.0 via satélite, poderá ajudar a acelerar o mercado no desenvolvimento dos sinais terrestres DTV+. “Incluir o satélite na TV 3.0 será bom para o consumidor, para as emissoras e para o governo. Por isso, emissoras de televisão, indústrias de receptores, operadoras de satélite e governo devem atuar em conjunto para buscar a melhor solução técnica e atender milhões de pessoas”, diz Marcelo.

Marcelo cita algumas vantagens que o satélite traz. A base de transmissão dos sinais digitais UHD (Ultra HD) e suas configurações com a tecnologia DVB NIP (DVB Native IP) via satélite deverão ser 100% compatíveis com os receptores digitais UHD terrestre, tanto para canais FTA (Free to Air), como canais FAST “Free Ad-Supported Television” (vídeo pela internet que oferece conteúdo gratuito com suporte de anúncios) e OTT/APP (plataformas de streaming). “Com o uso da tecnologia nativa IP é possível associar broadcast e broadband. Criar algo novo que vai permitir atender as demandas geradas pelos novos hábitos de assistir televisão que o consumidor já desenvolveu. Assim como o padrão MPEG-DASH (Dynamic Adaptive Streaming over HTTP), que vamos usar. Uma técnica de streaming de taxa de bits adaptável que permite streaming de alta qualidade de conteúdo de mídia pela Internet fornecido por servidores web HTTP convencionais”, explica Marcelo.

Outra vantagem do satélite é que a banda já está disponível. “O satélite já está lá. Sem necessidade de discussão de frequência”. Além disso, no lançamento, a TV 3.0 via satélite já poderá estar disponível para cobertura nacional, sem necessidade de roll out como ocorreu na implantação da TV digital. A recepção será com uma antena única, pois a mesma da TVRO Ku poderá ser utilizada na TV 3.0 por satélite.

Essas vantagens contrastam com questões da transmissão terrestre, como a indefinição e congestionamento do espectro VHF/UHF; adaptação da infraestrutura de torres e antenas Tx MIMO/novos transmissores dual. “Além disso, o terrestre exige um prazo longo de implantação; há a complexidade das redes SFN e necessidade de recepção com novas antenas Rx”, diz Marcelo.

O satélite também teria um papel de apoio ao terrestre. No sistema por satélite, o mesmo sinal que chega no consumidor final seria o sinal que chegaria pelas redes profissionais, alimentando retransmissões locais. Uma infraestrutura de distribuição única. Um só investimento para transmissão para uma rede da afiliada e para o consumidor final.

Marcelo acredita que iniciar a construção da TV 3.0 via satélite junto com a TV 3.0 terrestre tornará o processo mais simples. O satélite é um colaborador importante para ajudar as emissoras a colocar a TV 3.0 terrestre em pé.

Data Broadcast​

Além do incremento na qualidade de som e imagem, a TV 3.0 tem uma característica fundamental que é a interconectividade que a internet proporciona em função dessa convergência entre broadcast e broadband. “A experiência logada, é algo muito importante hoje. Saber quem está assistindo, poder fazer recomendação, integração com mídia social, acessos clicáveis, tudo isso proporcionará novas oportunidades de monetização para as emissoras”, diz Guilherme Saraiva. E também o “data broadcast” por meio do qual se obterá informações de dados a partir da torre de TV. Então, hoje, nosso foco de trabalho é na inserção dinâmica de comerciais e a questão de medida. Será que é possível conseguir ter medida e novas receitas para quem está hoje na TVRO? Saber qual é a audiência, que canais o público está assistindo? Se conseguirmos essas informações de 1 milhão de pessoas, já estaremos melhor que o Ibope”, brinca, Guilherme.

Yvan Cabral mostrou que o Brasil vai trilhar um caminho semelhante aos EUA e países europeus, onde os receptores integrados (ou caixas) passarão a ter um papel central no ambiente de conexão dos lares com a comunidade e o mundo. Neste sentido, a presença de um receptor híbrido, que conecta a residência ao satélite e à banda larga, oferecerá exatamente aquilo que os consumidores procuram. “Esta é a missão para a qual estamos comprometidos. Levar para os consumidores que moram em mais de 5.200 municípios brasileiros com menos de 100 mil habitantes mais inclusão, informação e diversão”, disse.

TV TEM realiza primeiro teste de TV 3.0 via satélite​

Poucos dias após a realização do II SSPI Day 2024, foi anunciado o primeiro e bem-sucedido teste de uma emissora afiliada da Globo, a TV TEM, com sinal terrestre e satélite em funcionamento preliminar. “Provavelmente é a primeira configuração com TV 2.0 e TV 3.0 trabalhando juntas, via satélite”, disse Ewerton Maciel, CTO da TV TEM.

“O teste foi realizado como um POC (prova de conceito) e passou a ser uma configuração real que poderá ajudar todo o mercado de transmissão”, explicou o executivo. “São os primeiros passos de uma longa jornada, mas está funcionando perfeitamente“, disse.

 
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